Bisbilhotando, de longe, a educação de filhos

Hoje fui até a janela do meu apartamento para ver o que os vizinhos discutiam tanto, em um tom de voz tão alto. A briga era entre um homem que tinha decidido dar um basta e reclamar do filho de uma mulher que o importunara. O garoto tem, provavelmente, 11/12 anos. Já o homem, acredito que pela aparência maltratada poderia ter uns 50. Ele estava se queixando do fato de o garoto chamá-lo de cachorro e em seguida sair correndo, por várias vezes. Antes mesmo de ouvir tudo que o vizinho tinha para desabafar, a mãe do garoto esbravejou aos quatro cantos. Disse que ninguém encostaria a mão no filho dela e que chamaria a polícia para o pobre coitado que se sentiu ofendido.

Ao perceber o problema em que se metera, o garoto correu mais uma vez. Saiu de perto dos adultos ferozes. Quase cães de briga. Foi para a esquina de um dos blocos e observou tudo, de longe, assim como eu. Apontado pelo homem na frente da mãe, a criança negou tudo. Logo, a mulher voltou a defendê-lo, acusou o acusador de tentar encostar a mão no filho dela. É como se o simples ato de reclamar virasse uma agressão. Pensei: vai dar B.O. Mas o pobre homem não se sentiu intimidado, disse que não aguentava mais as investidas (bullyng do garoto) e que ela poderia chamar a polícia a hora que ela quisesse.

Uma terceira pessoa surgiu na briga. Uma mulher bisbilhoteira que parecia gostar do que via, de um malfeito. Ela apenas observou, nada fez. Até que mais uma outra resolveu dar a cara na janela de um apartamento, ao lado. Com uma voz grossa e potente, falou que viu o garoto chamar o homem de cachorro outras vezes e sair correndo. Nesse minuto, alguém de outro bloco disse que o homem toma remédio e tem problemas mentais. Ainda assim a mãe do menino insistiu em defender a sua prole e continuou acusando o vizinho de tentar “encostar” no filho dela, mesmo com o testemunho do delito do bom menino feito pelos vizinhos.

Muito revoltado, ele segurou em uma das mãos um suporte de quentinhas. Na tentativa de convencer a mãe do garoto a tomar uma atitude corretiva, ali mesmo, em relação ao filho, disse que é trabalhador, que não queria confusão, mas a mãe em nenhum momento se voltou para o filho, para corrigi-lo. Ela nada fez. Consentido pela reação da mãe, o garoto continuou onde estava. Na rua.

Enfim, o homem decidiu ir embora, esbravejando sua revolta, tentando se explicar. Outras pessoas surgiram da janela de outro prédio próximo e tentaram acalmá-lo, dizendo para ele ir trabalhar. Ele foi embora falando o que já não dava mais para ouvir. Todos os curiosos voltaram para as suas vidinhas. O garoto retomou alguma brincadeira com os amigos, talvez até planejasse um novo apelido para o homem.

Vi isso tudo da janela do meu apartamento. Hoje é meu primeiro dia de férias e não sei se por azar ou sorte estou aqui. Moro com meu sobrinho em um condomínio de pobre em um bairro bem afastado do centro da cidade onde estou agora. Trabalhamos o dia todo e quase não ficamos em casa. Isso tem muitos prós, como, por exemplo, não participar da vida social dos desocupados que ficam em casa sem fazer nada e que tomam conta da vida alheia. Os chamados bisbilhoteiros. O problema é que, a partir de agora, talvez eu até esteja me tornando um involuntariamente.

Moro no quarto andar de um prédio de cinco andares. Aqui também há outros prédios, com janelas quase umas de frente para as outras. Parece um leve ensaio para um panóptico, mas ainda sim prefiro chamar de apartamento.

Na minha opinião…

Para começar, quero deixar bem claro: não tenho filhos e tampouco sou ou quero ser especialista em educação de filhos. Longe de mim. Mas, me criei na vida observando muito o comportamento das pessoas. Isso, hoje, é algo inerente à minha personalidade. E como observador que sou não consigo deixar de refletir sobre tudo o que vejo. Vejo, logo penso. É ‘pá-pum’!

Se tem uma coisa que me deixa desnorteado pelo resto do dia, são os vizinhos e os filhos dos vizinhos. Há diversos tipos. A maioria é do tipo terrorista. São aquelas crianças demoníacas que decidem correr no corredor do apartamento às 23h ou jogar bola dentro de casa no andar de baixo às 19h em ponto, logo depois de você chegar cansado após um dia tenso no trabalho.

Acredito que, em grande parte, o problema da falta de educação dessas crianças seja culpa de mães superprotetoras e negligentes, que passam a mão na cabeça de moleques encapetados que mais tarde podem se tornar qualquer coisa, menos bem-educados.

Sentencio isso porque essas crianças que estão crescendo hoje, apesar de muitos avanços na sociedade de modo geral, estão autorizadas a desafiar qualquer um em qualquer lugar. Não respeitam seus pais, seus avós, seus professores. Vivem por elas mesmas. Elas não têm referências capazes de detê-las em tempo hábil, na infância, e aí crescem sem respeito, sem educação, sem compaixão, sem empatia. Não entendem o que é respeitar o próximo. Se formam na rua, órfãos da escola e da família. Sem pais como referências, elas matam e morrem todos os dias.

É papel primitivo de qualquer mãe defender a sua prole, sempre. Mas numa estância um pouco mais evoluída (???) da nossa sociedade, a que estamos agora, é papel também defender os filhos da ignorância e irracionalidade total. O garoto que chama um adulto de cachorro hoje poderá ser coisa pior amanhã. Óbvio. Ele não tem e nem terá respeito por ninguém. E para mim, não se trata apenas de falta palmadas. Se trata também de falta de coragem dos pais para conversar e argumentar com os filhos. De efetivamente assumirem seus filhos seja qual for a situação, sendo rico ou pobre, sendo a favor ou contra palmadas.

No caso que citei acima, a mãe nem mesmo teve voz para dizer que aquilo não deveria ser feito, que foi uma ofensa. E olha que ela não é nenhuma idosa. Muito pelo contrário. É alta, corpulenta, deve estar na casa dos 30.

Se o filho dessa mulher fez isso com um adulto, sendo ‘doente mental’ ou não, imagina o que não faz com outras crianças da idade dele. E pior: isso tudo sob a chancela de uma mãe que me parece deixar pra lá. Ela deve achar que isso é coisa de garoto. Só que o que ela não cobra do próprio filho agora, a vida cobrará mais tarde. É só questão de tempo.

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