Como me tornei um fumante contra a minha vontade

Um dia, no mais fútil dos meus desejos, eu quis fumar um cigarro feito do papel da folha do meu caderno da escola. Isso tudo foi escondido dos meus pais.

Nem mesmo meus amigos, pré-adolescentes fumantes, ficaram sabendo dessa história quase trágica da minha vida. Lembro que pretendia apenas sentir o gosto.

Queria entender porque tantas pessoas tragavam aquela fumaça. E apesar de desconfiar que tudo era apenas fumaça, acreditei que talvez fosse uma fumaça com algum gosto especial. Talvez um leve sabor de chocolate ou algo um pouco adocicado que fosse.

Eu tinha 13 anos. Com essa idade, eu queria mais era experimentar tudo o que os adultos proibiam, mas dessa vez o proibido teve um pequeno gosto de decepção.

Foi um imenso dissabor. De repente tive que correr para o banheiro da minha casa e escovar os dentes durante quase dez minutos para tirar aquele gosto desagradável da minha boca.

E era horrível poder imaginar que a minha mãe ou meu pai talvez pudessem me flagrar com um hálito de fumante.

Contudo, eles não chegaram e também não descobriram o meu delito. Para início de conversa, eu não tinha conseguido dar um trago completo. Não sei dizer se por covardia, falta de coragem ou até mesmo respeito ao que os meus pais recomendavam.

O fato é que a partir daquele dia eu nunca mais consegui pensar em repetir tal ato.

Não foi fácil, admito. Com uma adolescência cercada de fumantes por todos os lados, era realmente difícil não ficar excluído de algumas rodas de conversas, grupos de “amigos”.

Na escola, sempre se falava nos malefícios do cigarro, mas eventualmente. Até porque boa parte dos professores fumavam. Exemplos mesmo que pudessem ser bons, naquela época, quase nenhum.

Eu via gente de todo o tipo fumando. Vi crianças experimentando. Filhos de fumantes relatarem que roubavam do maço dos pais para fumarem escondido. Velhos que fumavam para aliviar a tosse, para acompanhar o café matinal e para conseguir dormir.

Para tudo havia, e ainda há, uma desculpa para fumar. Confesso que com o tempo eu fui ficando cada vez mais incomodado com o cigarro das pessoas.

Com o tempo fui percebendo que o que eu menos queria era dividir um mínimo de espaço possível com fumantes.

Nunca consegui me habituar a ter que conversar com alguém depois de descobrir que ela era fumante apenas observando os lábios (roxos), o hálito totalmente insuportável e a voz quase sempre muito rouca, acompanhada de tosse e pigarro.

Não consigo compreender aquele ato como um sinônimo de beleza, estilo ou qualquer que seja o maldito adjetivo. Isso tudo ficava na minha cabeça por horas. Dias a fio. Como eu não poderia compreender algo que “todos” achavam praticamente normal?

Com a passagem da adolescência vem o amadurecimento aos poucos. A gente vai compreendendo certos dilemas e cada vez mais tendo certeza de que o que estamos fazendo é o certo.

Não fumar, então, deixou de ser uma possível opção para se tornar escolha certa a se fazer. Assim me tornei um não fumante convicto, mas ao mesmo tempo um fumante contra a minha vontade.

Daqueles que atravessam a rua para não ter que compartilhar da fumaça do cigarro dos outros, mesmo o esforço sendo em vão na maioria das vezes.

Hoje é quase impossível não pegar carona na fumaça alheia. Em todo lugar tem gente invadindo o nosso espaço. São os mal-educados (já falei aqui da falta de educação das pessoas) em massa produzidos pela indústria do tabaco e que, diga-se de passagem, está bem enraizada na nossa cultura.

No meu trajeto, de casa para o trabalho pela manhã, a única hora boa é quando estou dentro do ônibus. É um momento de paz em que eu não penso em cigarro.

Mas, basta sair para a rua que começo a encontrar com várias pessoas durante o que eu chamo que ‘refeição matinal’. É a hora que parece que o mundo inteiro fuma.

Logo nas primeiras horas do dia, quando deveríamos respirar fundo para mais um dia de trabalho, temos que nos conter e, por algum tempo no percurso até o trabalho, deixar de respirar, no que é praticamente impossível.

Só que nada é como a gente quer. Por exatamente ser um lugar público, a rua vira palco de tudo e qualquer tipo de desrespeito. Fumar e assoprar a fumaça na cara das pessoas, sendo elas fumantes ou não, pouca importa para quem só olha para o próprio umbigo.

Tudo bem que muitas pessoas têm conhecimento do vício e até se esforçam para tentar sair desse caminho tão poluído, mas invadir o espaço alheio, levando até mesmo doenças para aqueles que fumam passivamente todos os dias, também é um grave problema de saúde pública. Um problema muitas vezes invisível.

Com isso, deixo uma dúvida: seria o termo “fumante passivo” apropriado para quem consome tabaco diariamente, mesmo que ainda não tenha ciência disso?

Pela quantidade de pessoas que compartilham dos seus ‘tragos’ comigo nas ruas, acredito que seja a hora de cogitar uma visita a um pneumologista.

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